Meu 1º dia de aula

12/08/2010 23:45

 Dentre os quase 21 anos treinando taekwondo, uma dos momentos mais marcantes e que trago na memória com a lembrança como fora horas atrás, é o meu 1 o. dia de aula. Sempre fui um apaixonado por filmes de artes marciais, e um dos meus sonhos era aprender o chute giratório, no taekwondo chamado de montolho tchagui. Era um tarde gelada na segunda semana de janeiro de 1984. Eu acabara de chegar na pequena cidade de Drayton Plains, em Michigan, para um intercâmbio cultural. Por azar, nos 3 primeiros dias, uma tempestade de neve cobriu toda a cidade e a temperatura atingiu proporções inóspitas, paralisando a rotina da cidade, obrigando a mim e a minha “família americana” a passar 3 dias consecutivos em casa. Sem falar uma palavra sequer em inglês, o tédio e o desconforto de estar em meio a tantos estranhos (o mesmo para eles, afinal eu era o estranho), me levou ao extremo de ler de cabo a rabo as páginas amarelas.

E foi através deste bendito catálogo que vi o logotipo da academia Lee’s Black Belt Academy. Logo que passou a nevasca, tratei de me comunicar de alguma forma com a minha mãe americana e pedi para ela me levar na academia, e ela assim o fez, mas sem antes deixar de consultar a coordenadora do programa para saber se havia perigo. As aulas aconteciam em uma academia de tênis, para ser preciso, na própria quadra, de piso sintético. O mestre era um senhor coreano, faixa preta 7 o. DAN, chamado Chang Hwang Lee. Entroncado, forte como um fisiculturista em off season e com um largo sorriso cínico, Master Lee, como era chamado, logo se aprensentou e foi muito cortez. Não enetendi porra nenhuma do que ele falou, mas pelo sorriso da minha mãe americana, vi que foi algo engraçado e que era a meu respeito. Não importava, pois para minha maior alegria, a primeira imagem que vi da aula foi todos alunos chutando o tal chute que eu sonhara aprender, ao comando dos assustadores gritos do monitor da aula, um senhor chamado Mr. Ortega, que tinha mesmo cara de Ortega, e parecia com aqueles caricatos personagens do Pancho Villa.

Aquele momento foi mágico, e naquele segundo percebi que aquilo seria algo da minha vida para sempre. Era a aula das 17:00h, e logo terminaria para o início daquela que seria a minha 1 a. e inesquecível aula de taekwondo. Lembro perfeitamente eu “apanhando” para colocar o dobok (uniforme) e tentando de alguma forma entender a conversa dos outros alunos, e tudo é tão vivo na minha memória que quase possso sentir o frio nos pés ao tocar o piso gelado. O grito (bote grito nisso) do Mister Ortega, como era chamado, me causava medo, mas a ansiedade era tamanha que podia ser até o King Kong ali que eu encarava. Parei para observar o ritual dos alunos ao entrar na aula, fiquei por ali meio encabulado, repeti o gesto e entrei com a timidez de um faixa branca que mais parecia um cachorro que corre atrás do carro latindo, e quando o carro pára o cachorro não sabe o que fazer. E foi o que aconteceu comigo, tudo que eu queria era estar ali, mas não sabia o que fazer, e apenas segui o grupo. Quando Mestre Lee entrou eu estava com o olhar meio desatento, ainda caindo a ficha, e o grito do Mister Ortega para mandar saudar Master Lee foi tão sinsitro, que em português/cearensês claro e em bom tom não consegui conter o “valha minha Nossa Senhora”, de espanto. Todos cumprimentaram o Mestre e ficaram em posição de sentido. E num é que o Mestre resolve me chamar lá na frente para me apresentar à turma. Eu tremia mais que Toyota em ponto morto, mas fui até lá. Eu era um adolescente recém saído do interior do Ceará que tinha como referencial de mestre, seres que eram muito mais que humanos e repletos de super poderes, que ia além da mística dos filmes. Mestre Lee, muito educado, me apresentou como Gomez, from Brazil (foi a única parte que entendi). A aula começou, e a partir daí, por sempre ter sido muito afoito em esportes, me senti mais a vontade, e logo fui me apaixonando por esta arte que aprendi a amar desde o 1 o. dia.

Até hoje, sempre que um aluno novo entra no dojang, toda aquela cena se repete na minha memória, talvez por isso seja tão atual. Se é algo que sempre que tenho a oportunidade costumo falar para os meus alunos, é que eles lembrem bem desse momento, pois nunca se sabe quando alguém vai ter uma vida inteira voltada ao taekwondo, e caso sim, estas memórias vão ser muito valiosas para eles. Talvez incosncientemente ou por intuição, o coração já sente tudo que será para sempre, e ele encarrega-se de lembrar o cérebro para guardar aqueles momentos num lugar especial. No meu caso foi assim, o resto é história…

 

Por Halder Gomes, 07 de abril de 2005.